sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O fórceps nosso de cada dia...


Estou nesse período, estudando para um concurso público, esse tão almejado sonho de tantas pessoas em nossa vasta nação. Eu já sou concursado, efetivo, mas quero passar em outro que me dê, evidentemente, uma remuneração melhor. Não são poucas às vezes em que me pego meio desanimado pela quantidade infindável de matérias com todas as suas complexidades, algumas destacam, aterrorizando como um verdadeiro cerberus vindo das entranhas mais baixas da terra, ávido para devorar meu cérebro. Entre essas posso citar a disciplina de raciocínio lógico.....ó céus.....minha lógica não compatibiliza com este raciocínio. E foi exatamente num desses dias de desânimo que comecei a relembrar minhas vitórias para que isso impulsionasse os meus passos.

Relembrei da segunda vitória mais importante da minha, a primeira é claro já foi a de conseguir chegar na frente de alguns milhões de espermatozóides concorrentes...he, he, he.

A segunda foi a do nascimento. Algumas curiosidades são relevantes de serem mencionadas, minha mãe, enquanto gestante da minha pessoa, simplesmente não conseguia comer, porque colocava tudo para fora quase que instantaneamente, só conseguia beber, ainda assim em condições especiais, sendo que qualquer coisa que ela fosse tomar deveria ter passado pelo freezer, e quando o líquido estivesse cristalizado à superfície, ela virava tudo de uma vez, afinal ela não se contentava apenas em beber, ela tinha que afogar com o líquido também......vai entender seu organismo e os desejos desencadeados pelo seu estado interessante.

Na ocasião do meu nascimento, fez o pior frio da história de Corumbá/MS, muitas pessoas pobres morreram de frio, e quanto a mim, o pessoal de branco decidiu me tirar, afinal eu já passava do tempo. Mas o problema é que eu estava muito bem acomodado na barriga da minha mãe, e não estava lá muito disposto a nascer. Minha mãe teve princípio de eclampsia, acompanhado de uma hemorragia que não estancava de jeito nenhum. O resultado foi que a médica que fazia o parto ficou histérica e foram obrigados a chamar um outro médico, este, também teve muito trabalho, pois eu estava com duas voltas de cordão umbilical no pescoço, ou seja, não estava afim de vir para essa terra mesmo, não sei como, mas a solução foi utilizar o fórceps para me tirar. Como minha mãe não comia quase nada, eu nasci com uma anemia grave, sendo que aos três meses, eu precisei fazer uma transfusão de sangue, e isso foi minha salvação, aos 6 meses eu já pesava doze quilos. Entre esse início da minha vida até os dias de hoje, muitas coisas já aconteceram, já estive com várias voltas de cordão de problemas no pescoço, já fui arrancado a contra gosto pelo velho e conhecido fórceps diversas vezes no meu aprendizado, muitas vitórias e fracassos se sucederam, mas o mais importante que guardo destes episódios, é que em determinados momentos de nossas vidas, nos vemos em situações que querem nos obrigar a sair da barriga da mamãe, de nossa zona de conforto, e acabamos lutando contra, mesmo que de forma inconsciente. Isso acontece até mesmo com os perfis mais desafiadores, afinal gostamos do conforto, do bem estar, e lutamos mais ainda quando tudo aquilo que demoramos eras para conquistar, está ameaçado por qualquer que seja o motivo. Mas eu entendo hoje que ciclicamente, somos compelidos, pela vida, pela economia, pelas pessoas, por Deus, a estarmos nos renovando, metamorfoseando, para as novas etapas que trilharemos. Já vejo as mudanças com nova perspectiva, o fórceps não é tão mais necessário. Desse modo, olho para o céu e agradeço pela minha vida, minhas experiências, minhas cabeçadas, minhas vitórias, meus filhos...tudo me impulsiona para a frente e o tempo é meu parceiro.

Ela está ali


Cheguei de uma pequena viagem que fiz a casa da minha vó paterna que fica no interior do estado de São Paulo, dessa vez o objetivo foi levar meus filhos para conhecê-la, afinal é a bisavó deles.

São interessantes essas minhas incursões a casa da minha avó. Tomando um café na casa da minha prima, nos pegamos analisando minhas visitas, e descobrimos que elas são coincidentemente cíclicas, isso porque a primeira vez que fui visitar a minha vó, estava com cerca de 4 anos, a segunda estava com 13 ou 14, a terceira já estava casado com mais ou menos 25 anos e agora com 37, ou seja, as minhas visitas são de década em década, até brincamos que a próxima vez que visitá-los já serei avô. As razões para essa demora no retorno são diversas e conhecidas pela maioria das pessoas que lêem essa história: falta de tempo, filhos (nascimento, muito pequenos, férias não coincidentes), FALTA DE GRANA, falta de priorização, etc.

Não me lembro muito bem da minha primeira visita, mas recordo da minha vó preparando uma gemada pela manhã, colocando um pouco de farinha pra engrossar, era uma delícia......que salmonella que nada..... com 4 anos era o que menos me preocupava. Lembro-me também de brincar a beira do rio Paraná, de sunguinha, catando pedrinhas (naquela época o rio tinha de uma margem a outra cerca de 2km, hoje por conta da barragem, está com mais de 13km), meu tio Zezão, militar reformado da gloriosa Marinha, também tinha um negócio de barcos, alugava-os para pesca, passeios, etc., ele ficava a maior parte do tempo na beira do rio, numa casa de madeira no estilo palafita, dormi várias vezes nessa casa, tinha um pouco de medo, a noite ela se tornava um pouco sombria, um silêncio ensurdecedor que só era quebrado pelo barulho das ondas do rio quebrando na margem e pelos cacarejos e outras onomatopéias dos animais que meu tio criava para consumo. Lembro ainda de um passeio de barco onde ele me deixou guiar o leme....quase bati na ponte.....mas valeu.

Interessante.........da visita aos 14 não me lembro praticamente de nada, meu tio me mostrou uma foto dessa época, não lembro nem da roupa que eu usava na foto....muito estranho.

Uma visita acidental, é assim que posso caracterizar o meu retorno a Pres. Epitácio aos 25 anos. Naquela época eu fazia um trabalho de troca de produtos (SAC) para algumas multinacionais, e calhou de fazer um trabalho numa cidade bem próxima e aproveitei para dar uma espichada até lá, foi uma visita bem rápida, mas o suficiente para matar a saudade. Foi a última vez que vi minha tia Maria com vida e minha vó com todo seu vigor e lucidez.

Agora aos 37, prometi aos meus filhos que os levaria para conhecer a bisavó deles, e esse foi o maior motivador para que eu retornasse a cidadezinha da minha saudade. Uns dias antes perguntei ao meu primo como ela estava e ele me disse que ela estava muito lúcida. Ledo engano. Talvez meu primo, que é na verdade filho de minha prima, do alto dos seus poucos 18 anos, não tenha tido tempo suficiente para vivenciar o vigor da lucidez da minha vó, toda a sua energia baiana, de mulher trabalhadora, resistente e forte para resistir as brincadeiras mórbidas da vida – ela enterrou todos os seus filhos – agora, aos 96 anos, movimenta-se com dificuldade, demora alguns segundos para responder ao que é perguntado (tem que perguntar 2 ou 3 vezes antes dela responder), de memória falha, lembrou-se de minha mãe, mas não de mim, um sentimento de frustração me dominou, mas compreendi. No segundo dia, sentado ao lado dela, assistindo televisão, ela vira-se para mim e pergunta: “E o Sandro? Casou?”. Fiquei meio atônito com a pergunta e respondi: “O Sandro sou eu vó. O Sandro sou eu vó” (2 vezes para ter certeza que ela tinha compreendido). Percebi seus olhos marejados e suas mãos num entrelaçar frenético, entendi que ela tinha se lembrado, então ela responde: “Eu só lembro de você pequenininho”, e eu disse: “Mas eu cresci vó, casei e esses são seus bisnetos”. Nesse momento meus olhos já estavam pra lá de marejados. Uma noite aconteceu algo que faria as lágrimas rolarem sobre meu rosto. Já estava duvidando da lucidez da minha vó ou se ela percebia o que acontecia em volta dela. A Minha vó já tem algumas dificuldades inerentes a alguém que está perto de completar 100 anos, movimenta-se com dificuldade e não consegue controlar muito bem o fluxo das suas necessidades fisiológicas. Nessa noite, estávamos eu e as crianças na sala, assistindo a um filme, quando vi a minha vó entrar no quarto cedido para que dormíssemos, confesso que como a próxima porta era a do banheiro, achei que ela tinha errado e ia fazer “caquinha” na nossa cama, fui até lá e perguntei: “O que foi vó?”, e ela me respondeu: “Coloquei um alcochoado pra vocês, a noite vai ser fria.” Não consegui segurar a emoção. Percebi que ela ainda estava ali conosco, entendendo e sentindo. Nos dias que seguiram conversava com ela, mesmo que ela não esboçasse reações imediatas ou parecesse distante......eu sabia que ela estava ali.

Na minha despedida, ela falou mais do que todos os dias que ali estive. Pediu para mandar lembranças à minha mãe, desejando felicidades e saúde e eu disse que da próxima vez que ali retornasse queria vê-la novamente, e ela respondeu: “Se Deus quiser”.

Eu sou evangélico, tenho uma crença bem arraigada sobre a representatividade dessa frase, mas dentro de uma espiritualidade geral, colaboramos, ou não, para a concretização de nossas realizações, através de nossas escolhas. E dentro dessa perspectiva, percebo que envelhecer está fora da nossa governabilidade e o que fazemos hoje influenciará a realidade de nossa velhice e vejo que para contribuir positivamente para o meu futuro, tenho que sair da minha rotina sufocante, dedicar um tempo de maior qualidade aos que amo (sem esperar décadas para expressar o que sinto), abstrair dos pensamentos cartesianos (não é fácil para um alto R fazer isso) e amar mais.

“Se Deus quiser” verei minha avó novamente!

“Se Deus quiser” terei uma velhice feliz!

Abraços para todos!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A voz do papai


17.08.08

Este final de semana, por imperiosa necessidade de repouso, ocasionado por uma cirurgia de pequeno porte que fiz na região do septo nasal, úvula-palato e retirada das amígdalas, fui forçado a uma ininterrupta contemplação do alienante objeto de atenção da maioria da família brasileira. Nas idas e vindas das mudanças de canais, deparei-me com uma propaganda de uma operadora de celular, cujo tema era um rapaz que narrava diversas fases da vida, destacando a importância da voz do pai, na orientação, condução, argüição e formatação de seu caráter e conduta.
Hoje que me vejo em situação onde não posso exercer a minha faculdade verbal, tive um daqueles momentos em que a gente tem a confirmação fática daquelas coisas quem sabemos que tem muita importância, mas não pensamos muito sobre o assunto.
Nesses últimos dias, tenho sentido tanta falta de falar com meus filhos que até me espanto, talvez a limitação física faça que essa necessidade se intensifique mais, em todo o caso, com a tônica do comercial que mencionei, tem valido para mim refletir sobre a qualidade das minhas palavras para com meus filhos.
Agora que estou separado, percebo que estava maleitosamente voltando ao velho hábito de quando estava casado, ou seja, deixar os meninos assistindo um desenho ou jogando videogame ou ainda brincado com seus brinquedos, até ai tudo bem, mas não quando agora se tem pouco tempo para compartilhar com eles, todas as suas emoções, frustrações, necessidades. Percebo que estou novamente desperdiçando um tempo precioso e necessário de realmente estar com meus filhos.
De poder conversar e não berrar, responder pacientemente a enxurrada de perguntas (afinal, se você não responder, alguém irá...e que valores e filosofias seu filho estará aprendendo??) Invista seu tempo na qualidade de atenção, pare o que está fazendo e olhe seu filho nos olhos, ele merece.
Quero deixar aqui esse alerta para todos que estão lendo esse pedaço de texto.
Cuidado!! Cuidado com a qualidade do tempo que você está dispensado aos seus filhos, eles precisam de nós, depois não poderemos reclamar se na adolescência eles ficarem “terríveis”, ai iremos querer conversar, e eles com certeza, não estarão “afim”, restará sentar e chorar, secar a goela brigando com eles ou ter um enfarte!!

Pense nisso!
Abraços!