
Noite passada, meu filho estava brincando com um jogo de montar, daqueles cheios de peças retangulares e quadradas com faces imitando tijolos, com desenhos variando de janelas à portas e peças triangulares imitando telhados. É interessante pois ele tem uma criatividade enorme, e fez uma grande montagem do que ele chamou de shopping, era realmente grande, devia ter uns 30 centímetros de altura por uns 20 de largura. Talvez alguém não ache isso muito grande, mas experimente fazê-lo, equilibrando todas aquelas peças, realmente é difícil. Enquanto ele foi me chamar para ver sua obra de arte, seu irmão menor mexeu numa peça da base, deixando-a meio torta. Ele inconformado, decidiu que deveria arrumá-la antes que eu a visse. Pois bem, lá foi ele arrumar a peça, no entanto, ele sabia dos riscos, pois era uma peça da base, e qualquer erro poderia e acabou sendo fatal, e toda a obra de arte veio abaixo.
Quando voltei para ver se ele já tinha arrumado, encontrei-o meio desconsolado, e quando indaguei-o do ocorrido, ele me relatou o “causo” como aqui já escrevi, e é claro jogando a culpa nas costas do irmão, afinal se ele não tivesse mexido... Na ânsia de consolá-lo, disse a ele que a perfeição é uma utopia, uma loucura, e que as vezes é preferível deixar algo “meio torto”, se isso não vai afetar todo o conjunto.
Depois de ter dito essas palavras fiquei reflexivo sobre isso, motivo pelo qual me motivou a escrever sobre o assunto. Voltei-me, invariavelmente, como faço, para as empresas e pessoas, e percebo pelo menos nas empresas que passei ou tive algum contato mais prolongado que existe uma busca frenética e louca pela perfeição, ou perfeccionismo. Tudo deve sair de maneira sincronizada, afinal, “tempo é dinheiro”, e qualquer erro ou imprecisão, pode custar muito ao cofre das empresas. A venda tem de ser perfeita, o projeto tem que ser apresentado de maneira excelente, o atendimento tem sempre que superar, temos sempre que manter a inteligência emocional “da onda”, para estarmos bem colocados ou destacados, perante os “burros emocionais” (esse será o tema de outro texto...aguardem). Mais voltando, temos que estar sempre atentos para o que nos rodeia porque de outro modo poderíamos perder o insight, a oportunidade de ouro e ficaremos desconsolados, mesmo que por um período de tempo. Bem.... no entanto, eu acredito que isso tudo não passa de uma perseguição utópica, a perfeição é inalcançável, pois sempre que você atingir um patamar, já estará defasado, a inteligência emocional da onda, já terá quebrantado na praia e já estará vindo outra, as competências serão outras. Sempre fui a favor da descentralização dos RH´s nas empresas, então veio um guru e disse que o “bicho” era centralizar tudo, e as empresas acompanharam, sobrecarregando os pobres gestores de RH, e agora mais recentemente, saiu um artigo num jornal econômico que tem o seu Valor, um outro guru, dizendo que a descentralização é o melhor caminho. Imagine, que coisa cíclica e quase esquizofrênica, mas não os culpo, são pessoas, e como tal, influenciadas (mesmo que não aceitem isso) pelo meio em que vivem, persuadidas pelo padrão do momento, abalroadas pelas tendências. Não quero que pensem que sou contra a inovação....céus...por Deus.....longe de mim. Muito pelo contrário, acredito que o ser humano é uma fonte inesgotável de criação e como tal deve ser utilizado, mas da maneira como as coisas se encaminham, estamos constantemente reinventando a roda, voltando de forma cíclica as mesmas idéias com nomes diferentes, pois ainda se supervalorizam os métodos e processos e negligenciam-se as pessoas, encaixotando-as numa tendência de pensamento estanque e cartesiano. Tudo isso porque buscamos o tal de perfeccionismo. Nem em nossas vidas não temos perfeição. Que casamento não tem desentendimentos? Que emprego não tem uma questão desagradável, seja um colega ou um cliente? Que cidade não tem criminalidade? Até mesmo a mulher/homem dos nossos sonhos, possui uma falhazinha, porque arrota ou solta pum na hora errada, ou ronca, ou deixa tufos de cabelos na pia e nos ralos dos banheiros, ou fala demais, ou fala de menos.
O fato é que existe uma força que milita incansavelmente contra a perfeição, dia após dia, noite após noite, ela chama-se vontade. Vontade essa traduzida de um inexplicável querer, seja algo, alguma coisa ou alguém. Advinda, invariavelmente do dom mais maravilhoso que Deus possa nos ter dado: o livre arbítrio.
Me lembro de um texto enviado por uma amiga que tem como título: Querer não é poder! E discordo levemente do mesmo. Eu acredito que Querer é poder! Mas acrescento: Desde que você esteja preparado para assumir as conseqüências! Quando meu filho quis arrumar a base que seu irmão havia entortado, ele tomou uma decisão, ele escolheu, só não estava preparado para assumir as conseqüências, cuja possibilidade era a ruína de sua obra de arte, o que de fato aconteceu. E isso acontece demasiadamente em nossos dias, somos levados por uma mídia massificante e palestrantes mercenários que apregoam em nome da motivação que podemos fazer tudo que queremos. Ledo engano, salvo algumas raríssimas mentes mais evoluídas, a esmagadora maioria está fazendo as suas escolhas e está se frustrando porque não conseguem viver com as conseqüências de suas decisões, apenas sobrevivem. Temos então, uma legião de profissionais com uma estampa perfeita para a sociedade e retalhados dentro do seu íntimo.
Jack Welch, em uma de suas muitas entrevistas, disse certa vez que sua maior frustração era ter sido um vencedor como o homem que transformou a GE numa das maiores empresas do mundo, mas ter sido um fracasso como pai de família. E assim está boa parte das pessoas que estão ao nosso redor, e o que dizer, talvez, de você que lê esse texto agora. Por isso, se eu tivesse algum conselho pra te dar, eu diria: Não busque a perfeição imposta, busque o seu aperfeiçoamento!!
Você sabe a diferença entre um bolo feito no forno a gás e um feito no microondas?
Aquele feito no forno a gás, assa de fora pra dentro, por isso temos que espetar um palito no meio dele a todo momento para ver se já ficou pronto.
E aquele feito no microondas, assa de dentro p/ fora, por causa dos raios de microondas que atravessam a massa, desse modo, quando o bolo aparenta estar assado, ele realmente está pronto, totalmente.
Se você usar o método do forno a gás, poderá ter uma “cara boa” rapidinho, isso é fácil, o difícil é agüentar as espetadas dentro do nosso ser mole e instável.
Utilize o mesmo princípio do forno de microondas em sua vida, cuide do seu interior, você verá que saberá lidar muito melhor com o exterior, e se tiver que tomar alguma decisão, saberá trabalhar muito melhor com as conseqüências.


