Cheguei de uma pequena viagem que fiz a casa da minha vó paterna que fica no interior do estado de São Paulo, dessa vez o objetivo foi levar meus filhos para conhecê-la, afinal é a bisavó deles.
São interessantes essas minhas incursões a casa da minha avó. Tomando um café na casa da minha prima, nos pegamos analisando minhas visitas, e descobrimos que elas são coincidentemente cíclicas, isso porque a primeira vez que fui visitar a minha vó, estava com cerca de 4 anos, a segunda estava com 13 ou 14, a terceira já estava casado com mais ou menos 25 anos e agora com 37, ou seja, as minhas visitas são de década em década, até brincamos que a próxima vez que visitá-los já serei avô. As razões para essa demora no retorno são diversas e conhecidas pela maioria das pessoas que lêem essa história: falta de tempo, filhos (nascimento, muito pequenos, férias não coincidentes), FALTA DE GRANA, falta de priorização, etc.
Não me lembro muito bem da minha primeira visita, mas recordo da minha vó preparando uma gemada pela manhã, colocando um pouco de farinha pra engrossar, era uma delícia......que salmonella que nada..... com 4 anos era o que menos me preocupava. Lembro-me também de brincar a beira do rio Paraná, de sunguinha, catando pedrinhas (naquela época o rio tinha de uma margem a outra cerca de 2km, hoje por conta da barragem, está com mais de 13km), meu tio Zezão, militar reformado da gloriosa Marinha, também tinha um negócio de barcos, alugava-os para pesca, passeios, etc., ele ficava a maior parte do tempo na beira do rio, numa casa de madeira no estilo palafita, dormi várias vezes nessa casa, tinha um pouco de medo, a noite ela se tornava um pouco sombria, um silêncio ensurdecedor que só era quebrado pelo barulho das ondas do rio quebrando na margem e pelos cacarejos e outras onomatopéias dos animais que meu tio criava para consumo. Lembro ainda de um passeio de barco onde ele me deixou guiar o leme....quase bati na ponte.....mas valeu.
Interessante.........da visita aos 14 não me lembro praticamente de nada, meu tio me mostrou uma foto dessa época, não lembro nem da roupa que eu usava na foto....muito estranho.
Uma visita acidental, é assim que posso caracterizar o meu retorno a Pres. Epitácio aos 25 anos. Naquela época eu fazia um trabalho de troca de produtos (SAC) para algumas multinacionais, e calhou de fazer um trabalho numa cidade bem próxima e aproveitei para dar uma espichada até lá, foi uma visita bem rápida, mas o suficiente para matar a saudade. Foi a última vez que vi minha tia Maria com vida e minha vó com todo seu vigor e lucidez.
Agora aos 37, prometi aos meus filhos que os levaria para conhecer a bisavó deles, e esse foi o maior motivador para que eu retornasse a cidadezinha da minha saudade. Uns dias antes perguntei ao meu primo como ela estava e ele me disse que ela estava muito lúcida. Ledo engano. Talvez meu primo, que é na verdade filho de minha prima, do alto dos seus poucos 18 anos, não tenha tido tempo suficiente para vivenciar o vigor da lucidez da minha vó, toda a sua energia baiana, de mulher trabalhadora, resistente e forte para resistir as brincadeiras mórbidas da vida – ela enterrou todos os seus filhos – agora, aos 96 anos, movimenta-se com dificuldade, demora alguns segundos para responder ao que é perguntado (tem que perguntar 2 ou 3 vezes antes dela responder), de memória falha, lembrou-se de minha mãe, mas não de mim, um sentimento de frustração me dominou, mas compreendi. No segundo dia, sentado ao lado dela, assistindo televisão, ela vira-se para mim e pergunta: “E o Sandro? Casou?”. Fiquei meio atônito com a pergunta e respondi: “O Sandro sou eu vó. O Sandro sou eu vó” (2 vezes para ter certeza que ela tinha compreendido). Percebi seus olhos marejados e suas mãos num entrelaçar frenético, entendi que ela tinha se lembrado, então ela responde: “Eu só lembro de você pequenininho”, e eu disse: “Mas eu cresci vó, casei e esses são seus bisnetos”. Nesse momento meus olhos já estavam pra lá de marejados. Uma noite aconteceu algo que faria as lágrimas rolarem sobre meu rosto. Já estava duvidando da lucidez da minha vó ou se ela percebia o que acontecia em volta dela. A Minha vó já tem algumas dificuldades inerentes a alguém que está perto de completar 100 anos, movimenta-se com dificuldade e não consegue controlar muito bem o fluxo das suas necessidades fisiológicas. Nessa noite, estávamos eu e as crianças na sala, assistindo a um filme, quando vi a minha vó entrar no quarto cedido para que dormíssemos, confesso que como a próxima porta era a do banheiro, achei que ela tinha errado e ia fazer “caquinha” na nossa cama, fui até lá e perguntei: “O que foi vó?”, e ela me respondeu: “Coloquei um alcochoado pra vocês, a noite vai ser fria.” Não consegui segurar a emoção. Percebi que ela ainda estava ali conosco, entendendo e sentindo. Nos dias que seguiram conversava com ela, mesmo que ela não esboçasse reações imediatas ou parecesse distante......eu sabia que ela estava ali.
Na minha despedida, ela falou mais do que todos os dias que ali estive. Pediu para mandar lembranças à minha mãe, desejando felicidades e saúde e eu disse que da próxima vez que ali retornasse queria vê-la novamente, e ela respondeu: “Se Deus quiser”.
Eu sou evangélico, tenho uma crença bem arraigada sobre a representatividade dessa frase, mas dentro de uma espiritualidade geral, colaboramos, ou não, para a concretização de nossas realizações, através de nossas escolhas. E dentro dessa perspectiva, percebo que envelhecer está fora da nossa governabilidade e o que fazemos hoje influenciará a realidade de nossa velhice e vejo que para contribuir positivamente para o meu futuro, tenho que sair da minha rotina sufocante, dedicar um tempo de maior qualidade aos que amo (sem esperar décadas para expressar o que sinto), abstrair dos pensamentos cartesianos (não é fácil para um alto R fazer isso) e amar mais.
“Se Deus quiser” verei minha avó novamente!
“Se Deus quiser” terei uma velhice feliz!
Abraços para todos!
Nenhum comentário:
Postar um comentário